Entrevista: Lucas Silveira (2011)

Em abril de 2011 tive a oportunidade de entrevistar o Lucas Silveira, vocalista da banda Fresno. Na época ele acabara de lançar as primeiras faixas do seu projeto paralelo de música eletrônica SIRsir. Infelizmente o site no qual a entrevista foi publica originalmente não está mais no ar, mas consegui recuperar o texto para compartilhar aqui.

sirsir

Quem conhece o trabalho do Lucas Silveira sabe que ele nunca para. Batemos um papo com ele, e entre novidades da Fresno e do Beeshop, Luan Santana e o mercado fonográfico brasileiro, aproveite e conheça o SIRsir, novo projeto musical do cara (clique aqui para ouvir), totalmente diferente do que você está acostumado a ouvir dele. 

– E aí Lucas, tudo certo? 

Eita nóis. Tudo certo. Loucura organizada, digamos assim.

– Desde o dia que você divulgou o SIRsir pel primeira vez fiquei bem curioso para entendê-lo. Li no Soundcloud que o SIRsir é algo distinto, e você deixa claro que não é DJ. Então, qual é a essência desse projeto? 

Não me considero DJ porque simplesmente acho que seria uma ofensa aos DJs de verdade, como o Zegon, Chernobyl, entre outros amigos meus. O foco principal do SIRsir é a produção dessas músicas que, por serem eletrônicas, o pessoal confunde as coisas. Eu passo noites em claro estourando os miolos com meus fones de ouvido, e incomodando os vizinhos durante o dia, procurando diferentes abordagens para novos sons. É um processo caótico, mas eu estou gostando do resultando e sigo evoluindo nesse sentido, de fazer música dançante, pra pista, mas sempre com uma agressividade peculiar. Pretendo apresentar esse trabalho na noite, certamente, e vou curtir muito fazê-lo, mas serei apenas soltando minhas músicas, e mixando-as com músicas de outros que combinam com o meu estilo. Claro que vou tentar tacar fogo nas pessoas e deixar todo mundo com a cabeça zumbindo, mas DJ, na minha opinião é algo que vai além disso. Com o tempo e a vontade necessários eu posso aprender e até me declarar um, mas não é agora.

– ‘Psychosocial’ é uma música do Slipknot que você remixou, mas e ‘Horse’, com a introdução que lembra um filme de luta e um sample de discurso à la Hitler?

Eu procurei começar por esse lado mais extremo, embora eu ache que, mesmo tendo sido finalizada há duas semanas, eu já esteja achando que posso ir mais fundo e extrapolar ainda mais esse limite. Eu fiz ‘Horse’ daquele jeito porque gosto da abordagem que o The Bloody Beetroots (duo italiano) e o SebastiAn (produtor francês e minha maior influência) usam em algumas músicas, de chamar pro lado heavy metal da coisa, o lado do cramulhão [diabólico]. Acho que isso aciona no cérebro das pessoas uma área diferente da que atuam as músicas dançantes mais convencionais. Sei lá, da vontade de gritar. Quando vi que o material tava indo pra esse lado, tirei os freios: adicionei um solo de guitarras em terças, à la Iron Maiden. Vai que pega uma coisa dessas, sei lá. Aquele discurso eu tirei de um filme antigo, cujo nome eu não lembro agora. Peguei no YouTube. Remixar Slipknot foi uma ideia que tive numa dessas madrugadas, ao perceber que o refrão de uma música porrada como aquela pode ter mil abordagens diferentes. Então eu fiz uma batida à la ‘Deeper Shade of Soul’, do Urban Dance Squad. Uma coisa meio final dos anos 80. Gostei do resultado e lancei, principalmente porque não existe quase nenhum remix pra essa música rolando por aí. Tem fã de Slipknot que ficou meio puto, mas tenho certeza que Corey [Taylor, vocalista do Slipknot] e companhia achariam no mínimo curioso/interessante.

– Pretende transformar o SIRsir em algo maior, como o Beeshop, ou é só um hobby?

O Beeshop é uma coisa que eu não tenho na minha cabeça como uma coisa completa. Eu acabei empacando na própria agenda da Fresno, além do fato de o pessoal confundir muito as coisas. Em muitos shows, o que eu vi era gente ali pra ver ‘o cara da Fresno’, pessoas que estariam bem mais felizes se eu estivesse cantando ‘Uma Música’ ao invés de ‘Lovers Are In Trouble’, mas que se contentam em ficar ali me olhando e pedindo uma palheta. Claro que, por outro lado, com o Beeshop eu ganhei reconhecimento de uma galera que torcia o nariz pra Fresno e que, a partir de seu lançamento, passou a respeitar pra caramba. Também tem os fãs que já gostavam de Fresno e que viram no Beeshop uma coisa mais condizente com suas realidades musicais atuais. Tenho muitos fãs com o projeto solo, não nego isso, e nem é exatamente por isso que aconteceu essa empreitada – aconteceu porque eu tava afim na época – mas o meu plano de angariar pros meus shows o pessoal “Antena 1” acabou morrendo na praia. Mas aí a gente entraria nuns assuntos chatos de como foi trabalhado o negócio, se foi certo, se foi errado, se o povo é preconceituoso, se eu sou ou não uma merda, entre muitas coisas que me dão até preguiça de pensar em escrever. Tenho planos pro Beeshop sim, coisas bem loucas, inclusive, mas ainda preciso arranjar espaço na cabeça pra começar a rodar isso.

O SIRsir é mais uma dessas coisas. Tive essa pira bem no começo do trabalho com o Beeshop. Já estava pensando em um segundo disco do projeto. Iria chamá-lo de SIR Beeshop, e seria uma coisa completamente nada a ver com o primeiro. No entanto, conclui que levantei com o The Rise And Fall Of Beeshop [primeiro álbum do Beeshop] uma expectativa bem grande do público que gostou, de que eu seguisse uma linha com o projeto que, ao menos, fizesse sentido. No entanto, quando fui desenvolvendo as músicas, percebi que elas estavam ficando ‘demasiadamente Beeshop’, e fui diferenciando, mudando, mexendo, até que criei esse monstro que eu decidi chamar de SIRsir, algo totalmente diferente do que eu vinha fazendo, e que não levanta expectativa nenhum, pelo simples fato de que ninguém sabe o que esperar de mim com esse projeto. Não os condeno, pois nem eu sei onde isso pode parar. Quero fazer amigos em uma cena nova, conhecer outro role e mostrar, principalmente pra mim mesmo, que eu sou capaz de fazer algo relevante nessa praia. Tenho umas 6 ou 7 faixas prontas e sigo maquinando como fazer pra lançá-las, mas já adianto que não tenho interesse no momento de fazer um CD. Por mim, na real, eu não lançaria mais CD de porra nenhuma. Lançaria pen drives pra galera. Bota meu som pra dentro do teu computador e ainda fica com uma coisa que vai ser útil na tua vida. Daqui a poucos anos, o gesto de colocar um CD pra tocar será tão vintage e saudosista quando rodopiar um vinil num 3 em 1.

– Falando em Beeshop, alguma novidade da banda de um único homem? Foi dito que novidades da Fresno estão surgindo, algo que possa comentar?

Quanto à Fresno, o ano começou MESMO só agora. O verão é uma época bem fraca pra gente. Salvo festivais grandes, como o Planeta Atlântida, e um ou outro show pelo litoral, a gente faz porra nenhuma, o que tem seu lado positivo, afinal de contas, todo mundo precisa de férias, às vezes. Mas eu andei pensando muito nesse momento que está rolando na música brasileira. Andei conversando com uns amigos do rolê, e o lamento é sempre o mesmo: “Poxa, que merda, estamos com poucos shows marcados, o mercado está horrível, todo mundo só quer saber de sertanejo, de colorido…”, ou “A coisa está difícil pro rock… Nos anos 90 é que era bom, os caras tão ricos”. Sei lá, eu procuro enxergar nesses momentos de crise uma esperança de que haja uma reviravolta. Uma mudança boa. E quer saber? Que bom, que ótimo que parte das pessoas que antes iam ao show da Fresno agora tão indo no show do Luan Santana, do Restart, de quem for. Sério, nada contra ninguém MESMO, mas podem ficar com eles, a gente não quer ninguém de volta. Eu quero no nosso show gente que me ouve porque gosta daquilo, e gente que gosta daquilo porque se identifica. Eu quero um público de verdade ali embaixo cantando comigo. Essas pessoas existem, e nunca nos abandonaram. Podem ter se retraído, mas estão todos por aí. Eu não me importo se é homem, se é mulher, se é gay, eu quero que aquelas pessoas entendam a catarse coletiva que sempre foi o show da Fresno, e que deixou de ser nesses anos de super-exposição que a gente teve, anos em que herdamos esse público volátil que nem sabe o que quer ouvir.

A gente passou da capa da Capricho pra capa da Rolling Stone, e isso pra quem tinha lá atrás o sonho de ser rockstar é o auge de uma carreira, mas não pra mim. Eu não me vejo no auge. Temos coisas em mente, planos grandes. Queremos viajar o Brasil de novo, agora com o Revanche debaixo do braço, queremos levar outras bandas, mas um pessoal que seja do rolê, que seja ‘tru’ [rockeiro]. Se o momento é de crise, então vamos pra briga. É na crise que eu me sinto em casa, pois a gente veio de uma cena em que pegar 18 horas de busão lá de Porto Alegre pra tocar pra 250 pessoas no Volkana (extinto bar underground de São Bernardo do Campo) era motivo de celebração. Muitos anos passaram, e se hoje a minha música me dá meios pra eu ter uma TV grande e um Xbox, pra me sustentar, então eu não me vejo em posição de choramingar que ‘não está fácil’, pois NUNCA foi fácil.

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