Sobrevivi a uma noite na Virada Cultural 2014

No ano em que completa 10 anos, a Virada Cultural mostra que está no caminho certo, mas que há muito ainda a ser ajustado.

palco julio prestes

A noite começou tranquila ao som de maracatu e samba no palco Luz, mas não demorou para que o primeiro dos grandes problemas da Virada desse o ar da graça: a sinalização. Quem não está acostumado ao centro de São Paulo – ainda mais durante a noite – teve dificuldade para se locomover entre as diferentes áreas com atrações e palcos. E mesmo com o apoio do mapa  de didática ruim  distribuído pela organização do evento, a desorientação coletiva era grande. Informações confusas e imprecisas faziam parte do cardápio oferecido por boa parte dos guardas e PMs de plantão – na dúvida, pergunte ao guarda civil metropolitano. Grandes mapas (ou ‘mapões’, como foram apelidados por 9 entre cada 10 pessoas) facilitavam a localização, mas ainda assim uma melhor  e mais clara sinalização nas ruas fez falta. Uma sugestão é a criação de corredores de fluxo, a fim de evitar a descentralização do público para ruas secundárias, onde as chances de assalto sobem na mesma proporção em que a distância das forças policiais aumentam.

Falando neles, a presença massiva de policiais militares e guardas metropolitanos deu o tom ao evento, deixando no ar um misto de tranquilidade e tensão. Contudo, a grande atuação policial não foi suficiente para que mais pessoas fossem detidas nesta madrugada do que durante toda a edição do ano passado. Entre as trocas de palco foi comum passar por abordagens e revistas em massa, em sua maioria à grupos de jovens, os ‘bondes’. No Anhangabaú, uma briga de ‘bondes’ se desenvolvia enquanto eu seguia sentido Líbero Badaró, me fazendo apertar o passo e procurar com os olhos o reforço policial ali ausente. Ausência essa também notada no palco Carlos Nazaré por volta das três horas da manhã – na região entre esse palco e o palco 25 de Março o clima era intimidador, e PMs com a mão no cassetete fitavam com cara de quem comeu e não gostou quem passava. Coincidentemente. era onde estavam concentradas atrações de rap e funk.

Gringos, gringos everywhere. Curioso o fato de que um evento como a Virada Cultural não disponha de material informativo bilíngue ou de centros de informação ao turista – exceto traduções no ‘mapões’.. Para eles resta ter bons amigos nativos ou muita sorte.

No palco Júlio Prestes a ‘velha baiana’ Baby do Brasil cantou e pregou o amor de Deus. Entre canções de sua carreira solo e botando a menina pra dançar e virar os olhinhos, a senhora de cabelos roxos fez o público rebolar e rodopiar. No fim, homenagem à seu ex-marido, Pepeu Gomes, ao som de Masculino e Feminino.

Em seguida, um pulo rápido na Praça Princesa Isabel onde, em uma pista coberta por fumaça de maconha e livre de policiais, jovens tinham seus cérebros derretidos pela música eletrônica e seus fígados corrompidos pela tequila misturada com água, vendida no esquema três doses por R$ 10. Será que a água era do volume morto?

Faltando uma hora para o próximo show no palco Júlio Prestes, uma intervenção do grupo francês Generik Vapeur entreteve quem aguardava. A (super) produção contou com banda em cima de um caminhão, bicicletas voando no céu com a ajuda de um guindaste e uma bonita – mas perto demais do chão – queima de fogos.

O relógio no alto da torre da estação Júlio Prestes marcou meia-noite. Um narrador misterioso começou a preparar o campo para a entrada da mato-grossense Vanessa da Mata. A voz não era estranha e as palavras soavam de maneira familiar e ritmada, então um “aqui quem fala é o Emicida” acabou com todas as dúvidas, mas participação do rapper se encerrou aí. No auge de sua brasilidade, a ‘perigosa e macumbeira’ fez um show bom, mas longe de enlouquecer a multidão – pelo menos até o bis. Com músicas de seu novo disco, Segue o Som, e canções marcantes de sua carreira, além de um cover de You Don’t Love Me (No, No, No) da jamaicana Dawn Penn, “Isso aqui tá lindo!” afirmou a cantora, maravilhada. Um fim morno e no horário previsto causou estranheza na plateia, até que alguns minutos depois Vanessa voltou ao palco para dar banana aos macacos e cantou o mega hit Ai, Ai, Ai. Pena que o banho de chuva não foi literal, São Paulo agradeceria. E entre os tantos elogios à cidade, o fim derradeiro da apresentação se deu após uma versão a capella de Por Enquanto (Mudaram as estações, nada mudou… ) acompanhada do coro formado pelo público. Foi bonito de ver.

A madrugada seguiu seu curso e foi tranquila. Embora os relatos de arrastões e o grande número de abordagens policiais fossem parte do cenário durante a peregrinação entre os diferentes espaços da Virada (com uma grande surpresa ao passar pelo palco da Avenida Rio Branco: a banda Cidadão Instigado interpretando o álbum The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd), voltei com todos meus bens e a integridade física intactos, provando que a Virada não é esse bicho de sete cabeças que a mídia noticia, mas que também não é uma criança inocente brincando na rua. A Virada é para os espertos – embora essa seja uma afirmação ambivalente, é bom destacar que esperteza não é sinônimo de malandragem.

No fim das contas, a lição que ficou dessa noite na edição dois mil e catarse da Virada Cultural foi clara: o melhor do evento são as pessoas, e o que há de pior nele também. Até ano que vem! Ou não.

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Todas as fotos por Virada Cultural/Fotos Públicas.

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